A família comum

****Hoje eu decidi contar uma história. Eu normalmente não sou boa em contar histórias, não mesmo. Me perco tentando achar o nome do personagem e esqueço que uma história tem que ter um bom enredo… e que no fim das contas os nomes nem importam tanto, que na verdade, o leitor ama o personagem pelas decisões e atitudes que o escritor lhe dá.

 

Nesse momento você, meu leitor de agora, deve estar achando que eu já me perdi na tentativa de contar a história, mas eu prometo que esse blablabla todo vai fazer sentido, aguarde. E leia.****

Fato é que existia essa família. Uma familia bastante da comum, nada de realmente especial sobre. E como toda familia sem nada de realmente especial, havia pai, mãe, problemas, filhos, problemas e avós e avôs. No começo eram o problemas com o dinheiro, os que realmente apareciam. As cotucadas da sogra daqui, as brigas causadas por aquilo ali eram só cotidiano. O problema entre as primas era só coisa de criança, e os natais continuavam a ser celebrados na casa dos avós.

Fato é que o tempo passa. E filhos crescem e pais se separam e pais brigam e se separam e os pais dos pais nunca conseguem ficar totalmente imunes ao caso. E nessa familia com nada de especial, aconteceu a mesma coisa. De um pai meio ausente fizeram-se avós ausentes, primos ausentes, tios ausentes. De uma mãe sempre muito presente fez-se uma familia inseparável e barulhenta, sempre junta italianando por ai.

Eis que os filhos crescidos começaram a crescer mais um pouco e já podiam decidir se o natal seria passado na casa da vó de lá ou da vó de cá. E a casa da vó de lá era desconfortável. A conversa, quando havia, era sempre a mesma desconfortável tentativa de produzir alguma simpatia, alguma afinidade que não havia. Então os natais, assim como os aniversários, as lembranças, e o afeto foram ficando bastante apagados naquela familia comum.

Viviam todos, entre uma crise de consciência ou outra. Viviam bem uns dias, maravilhosos outros, ruins aqui e ali, como ja disse, igual a todo mundo. Sem mistério. Até que um dia, aquele dia que todo mundo sabe que vai chegar mas ninguém pensa sobre, o vô de lá caiu doente. Bastante doente, do alto dos seus quase noventa anos. O pai enconlheu-se. A mãe foi solidária. Um filho chorou, sentiria falta do avô. Outro filho preocupou-se, quando sairia da UTI? E outro filho chorou, preocupou-se. E calou. Calou por não saber o que pensar. Sentiria, como seu irmão, falta do avô? Quando fora mesmo a utlima vez que sequer vira ou falara pelo telefone com o velho? Já não se lembrava. Quando fora a ultima vez que tivera vontade de ouvi-lo falar, contar uma história? Ou tivera, qualquer dia, vontade de dividir algo da sua vida com esse avô de lá? Não, não, não, não. Quando será que o avô sairia da UTI? Pensava nisso. Pensava se sairia, se uma visita seria apropriada. Mas achava também que seria hipócrita ir ver aquele avô que quase nem mais conhecia, apenas porque poderia estar este em seu leito e pi pi pi sonoro de morte.

Seguiram-se alguns dias com o tal do filho confuso andando quieto, mudo, com fones de ouvido enterrados nas orelhas. Não contou a ninguém o que acontecia, odiaria ver caras de dó o olhando ou então censuras por não saber o que sentia. Não tocou no assunto com mãe. Ligou pro pai por estar preocupado: como estaria o pai? O pai que poderia perder o pai. E assim acalentava sua confusão de dúvidas enquanto fingia um riso ali e calava aqui. E todos da familia comum começavam a acha-lo estranho e frio.

Foi então andando, cheio de cansaço, cheio de confusão, cheio do que nem sabia (aquele buraco negro como a noite que se fechava a sua volta), que um tiquinho de luz se fez. Talvez tenha sido aquela única estrela que piscara no momento exato em que ele a olhara, ou o farol do carro. Fato é que a verdade veio pousar no ombro do tal filho. Como poderia amar um avô que não existia? Não era questão de culpa, de quem foi mais ou menos procurar um ao outro. Era questão de ausênciae pronto. Não lhe era possível amar o nada, amar o vazio e muito menos construir um amor instantâneo baseado na dó e no desespero de uma possível morte. Nem no medo de sentir remorso quando o avô se fosse, agora ou depois – ele um dia iria. E ao mesmo tempo em que se deu que o amor pelo avô não apareceria do nada, percebeu que amava eu pai, apesar da ausência, e essa sim era sua culpa. E que poderia ser muito apropriado sim ir ao hospital, segurar a mão do avô que nem mais falava. E abraçar a avó que não perdera o jeito rude. Simplesmente pelo amor que sentia ainda pelo pai, pelo apoio, a preocupação pelo pai. E a gratidão, mesmo que meio torta, que sentia pelo avô ter criado seu pai, bem ou mal, e lhe dado condições de vir experimentar as confusões e delicias do mundo.

E decidiu-se, o filho, sob a garoa fina que começava a cair, observando o carro que já sumia na esquina, que iria, assim que chegasse o fim de semana, procurar o pai e o acompanhar ao hospital. Com um ultimo olhar de esguelha pra estrela que piscava turva, escondida atrás de uma nuvenzinha, decidiu-se também por cuidar do que era seu. Que aquela estrelinha tinha lhe ensinado que o amor não cresce no vento e no sumiço, como todo mundo sempre lhe tinha dito e ele nuca tinha de fato acreditado.

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